quinta-feira, 1 de setembro de 2011

HISTÓRIA DA LÍNGUA PORTUGUESA


A língua portuguesa originou-se do latim, que era a língua oficial do império Romano. O latim era dividido em latim vulgar e latim clássico. Essa última modalidade era usada pela elite do império (políticos, poetas, filósofos, entre outros), já o latim vulgar era falado pelas pessoas do povo (soldados, artesãos, ferreiros, comerciantes). Foi essa modalidade do latim que os romanos introduziram na Península Ibérica, onde mais tarde surgiria a nação portuguesa.O Império Romano estendeu-se por quase todo o mundo antigo. Aonde o Império ia, a língua oficial também era levada, mas era a modalidade vulgar que uma vez falada na região dominada sofria alguma mudança local. Foi assim que aconteceu na Península Ibérica.[I1]A invasão da península deu-se no século III. Lá já habitavam alguns povos, os celtas e os íberos, que tinham suas línguas, mas devido a supremacia do conquistador, aos poucos foram adotando a língua latina.Com a decadência do Império Romano e as invasões bárbaras, a língua latina falada na região da península sofreu várias outras transformações causadas, entre outros fatores, pelo isolamento das regiões devido a divisão do Império e pelo contato com a língua dos povos bárbaros. A conseqüência disso foi o aparecimento dos romanços, que foram as variantes do latim que surgiram nas regiões dominadas pelos romanos nessa parte da Europa.O romanço foi um estágio intermediário entre o latim e a futura língua que iria surgir em decorrência dessas misturas lingüísticas e culturais. As línguas surgidas dos romanços foram chamadas de línguas neo-latinas, que são as línguas modernas faladas em grandes países e em algumas regiões do mundo. Entre outros países, citemos, como exemplo, o português, espanhol, italiano, francês e o romeno, mas a lista é mais extensa.A Península Ibérica sofreu várias invasões. Além dos bárbaros, a região da península foi invadida pelos árabes no século VIII. Esse povo, com uma cultura, língua e religião diferentes, permaneceram por um bom período na região. Mas a Europa cristianizada, ajudou os Reinos de Leão e Castela [I2] na luta contra os mouros. Vinham nobres de toda a parte para lutar contra o invasor. Um desses nobres foi D. Henrique de Borgonha que obteve como prêmio pela sua participação na batalha contra os mouros uma faixa de terras, o Condado Portucalense, que ficava entre os rios Tejo e Minho. O casamento com com a filha do Rei, D. Teresa, fez parte do prêmio também.O condado ainda era dependente dos Reinos Leão e Castela. Mas após a morte de D. Henrique, a sua esposa continuou governando nos mesmos moldes do marido, não por muito tempo. O filho, D. Afonso Henriques, tomou o poder e ampliou os limites do condado, através de batalhas contra os mouros, a mais famosa batalha foi a de Ourique. Depois desses eventos, D. Afonso proclamou-se rei de Portugal.Com a independência de Portugal, começa haver uma nova ordem lingüística local. O romance (singular de romanços) falado nessa região era o galeziano, ou galaico-português, que começa a ter características diferentes, a conseqüência foi a divisão do romance: o português e o galego passaram a ser idiomas diferentes, distanciando um do outro conforme o tempo passava. No século XII, observa-se documentos redigidos na nova forma lingüística. A partir desse período são compostos as primeiras poesias (veremos isso quando estudarmos o Trovadorismo).Com as grandes navegações, Portugal passa a ser uma nação poderosa e amplia os seus limites territoriais par além mar. Lugares, na América, Ásia, África e em várias ilhas, são dominados pelos portugueses. Assim como se expandia o domínio de Portugal, seguia o mesmo caminho a língua falada por esse país. Hoje existem vários países que tem a língua portuguesa como a língua oficial, só aqui no Brasil são 170 milhões de falantes. Mas essa língua não permaneceu igual em todo o tempo, nem em todo o lugar. Ela sofreu modificações com o passar dos séculos, e ganhou particularidades em cada região que se instalou. O português falado aqui no Brasil é diferente do português falado em Portugal. O texto a seguir, escrito há alguns anos , é, de uma forma bem humorada um exemplo das mutações dessa língua no tempo e no espaço:

COMO SER BRASILEIRO EM LISBOA —SEM DAR [MUITO] NA VISTA
Ruy Castro
Sim, eu sei que não será culpa sua, mas, se você desembarcar em Lisboa sem um bom domínio do idioma, poderá se ver de repente em terríveis águas de bacalhau. Está vendo? Você já começou a não entender. O fato é que, como dizia Mark Twain a respeito da Inglaterra e dos Estados Unidos, também Portugal e Brasil são dois países separados pela mesma língua. Se não acredita, veja só esses exemplos.Você acaba de descer do avião em Lisboa e quer ir logo para o seu hotel. Nenhum problema: basta chamar um táxi. Táxi é táxi mesmo. Hotel também é hotel. Até aí tudo bem. Mas, no caso de você, daí para frente, ter de utilizar qualquer outro meio de transporte, ilustre-se um pouco na língua. Ónibus, por exemplo, é autocarro. Bonde é elétrico (pronuncia-se i-létriko). E trem é comboio.O único jeito de resolver todos esses problemas é ir a um rent-a-car e alugar um carro. Claro, o que mais se pode alugar num rent-a-car? Mas atenção, nada de deslizes: aprenda primeiro algumas palavras im­portantes.Não se diz freio, por exemplo. Diz-se travão. O guarda de trânsito não é um guarda de trânsito — é um sinaleiro. Motocicletas são moto­ciclos. E eu juro que um triciclo (sabem, esses de padaria ou lavanderia), é um velocípede sem motor. Agora, o que você deve prestar atenção mesmo é na estrada.Um casal brasileiro amigo meu alugou um carro e seguia tranqüilamente pela estrada Lisboa-Porto quando deu de cara com um aviso:Cuidado com as bermas. Eles ficaram assustados — que diabo seria uma berma? Alguns metros à frente, outro aviso: cuidado com as bermas. Não resistiram: pararam no primeiro posto de gasolina, perguntaram o que era uma berma e só respiraram tranqüilos quando souberam que berma era o acostamento.Você poderá ter alguns probleminhas se entrar numa loja de roupas desconhecendo certas sutilezas da língua. Por exemplo, não adianta pedir para ver os ternos — peça para ver os fatos. Paletó é casaco. Meias são peúgas. Suéter é camisola — mas não se assuste porque calcinhas femi­ninas são cuecas. (Não é uma delícia?) Pelo mesmo motivo, as fraldas de criança são chamadas cuequínhas de bebé. Atenção também para os nomes de certas utilidades caseiras. Não adianta falar em esparadrapo, deve-se dizer pensos. Pasta de dente é dentífrico. Ventilador é ven­toinha. E no caso (gravíssimo) de você ter de tomar uma injeção na nádega, desculpe mas eu não posso dizer porque é feio.As maiores gafes de brasileiros em Lisboa acontecem (onde mais?) nos restaurantes, claro. Não adianta perguntar ao gerente do hotel onde se pode beliscar alguma coisa, porque ele achará que você está a fim de sair aplicando beliscões pela rua. Pergunte-lhe onde se pode petiscar. Os san­duíches são particularmente enganadores: um sanduíche de filé é chamado de prego; cachorros-quentes são simplesmente cachorros. E não se esqueça: um cafezinho é uma bica; uma média é um galão; e um chope é uma imperial. E, pelo amor de Deus, não vá se chocar quando você tentar furar uma fila e alguém gritar lá de trás: “O gajo está a furar a bicha!” Você não sabia, mas, em Portugal, chama-se fila de bicha. E não ria.Ah, que maravilha o futebol em Portugal. Um goleiro é um guarda-redes. Só isso e mais nada. Os jogadores do Benfica usam camisola encar­nada — ou seja, camisa vermelha. Gol é golo. Bola é esférico. Pênalti é penálti. Se um jogador se contunde em campo, o locutor diz que ele se alejou, mesmo que ele se recupere com uma simples massagem. Gramado é relvado, muito mais poético, não é? E, se você for chegado a outros esportes, pode ir ver um jogo de basquete, que eles chamam de básquete. Ou ao rugby, que eles praticam muito bem, embora escrevam ráguebi e pronunciem rêiguebi.Para se entender as crianças em Portugal, pedagogia não basta. E preciso traçar também uma ou outra língüística. Para começar, não se diz crianças, mas miúdos. (Não confundir com miúdos de galinha, que lá são chamados de miudezas. Os miúdos da galinha portuguesa são os pintos.) Quando um guri inferniza a vida do pai, este não o ameaça com a tradi­cional “Dou-lhe uma coça!” mas com “Dou-te uma tareia!”, ou então com o violentíssimo “Eu chego-te a roupa à pele!” Às vezes, fico imaginando uma troca de impropérios entre Antero de Quental e Ramalho Ortigão, com todos os pronomes impecavelmente colocados. Um sujeito preguiçoso é um mandrião. Um indivíduo truculento é um matulão. Um tipo cabeludo é um gadelhudo. Quando não se gosta de alguém, diz-se “Não gramo aquele gajo”. Quando alguém fala mal de você e você não liga, deve dizer “Estou-me nas tintas” ou, então,”Estou-me marimbando”.Outras informações mais ou menos úteis. Quando chove muito, diz-se que está a cair um aguaceiro. Se faz frio, é porque arrefece. Se alguém morre afogado na praia, os jornais dizem no dia seguinte: “Morreu ao tomar banho!” Se algo pega fogo, diz-se que está a arder. Os aviões não decolam do chão, e sim descolam — o que não quer dizer que anterior­mente estivessem colados. E quando você joga alguma coisa fora, você a está deitando fora. Não importa que essa coisa caia de pé, você estará sempre a deitando fora. Ë uma bela língua, a língua portuguesa, sem dúvida. Eu gostaria de aprendê-la.Em Portugal, um navio não é um navio, mas um barco. Tanto faz um barco a remos quanto um porta-aviões, tudo é barco. Ou então paquete. Já um boy de escritório é sempre um paquete, mas não me perguntem por quê. E há sutis diferenças entre cão e cachorro: qualquer cachorro é um cão, mas só um cãozinho pequenininho, ainda filhote, é que é um cachorro. Não é interessante? Um homem bonito, que as brasileiras chama­riam de pão, é chamado pelas portuguesas de pessegão. E uma garota de fechar o comércio é, não sei por que, um borrachinho.Mas o meu pior equívoco em Portugal foi quando pifou a descarga da privada do meu quarto de hotel e eu telefonei para a portaria: “Podem me mandar um bombeiro para consertar a descarga da privada?” O homem não entendeu uma única palavra. Eu devia ter dito: “Ó pá, manda um canalizador para reparar o autoclisma da retrete!”.

Imagem: http://2.bp.blogspot.com/_IN4bcwYdSHQ/Sb6JGEjVFRI/AAAAAAAAABE/fZxu0p4DwhM/s320/linguaportuguesa.jpg

Nada está no intelecto que não tenha passado antes pelos sentidos (Provérbio antigo)